Os rins podem perder função por anos sem causar dor ou qualquer aviso claro. Neste artigo, baseado no vídeo do canal Médicos Explicam com o Dr. Carlos Koga (nefrologista), o Dr. Marcelo Goulart (urologista) e o Dr. Alexandre Habitante (nefrologista e intensivista), reunimos o que sabemos sobre a doença renal silenciosa, o jeito certo de beber água, os sintomas que parecem do estômago, as bebidas que pesam no filtro e os suplementos que pedem atenção em quem tem tendência a pedra nos rins.

Importante: este conteúdo é informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde. Suplementos só devem ser usados com orientação médica. Se você tem sintomas ou fatores de risco, procure um médico.

Por que a doença renal é chamada de silenciosa

Estimativas publicadas na revista Kidney International Supplements (Kovesdy, 2022) apontam que mais de 800 milhões de pessoas no mundo vivem com doença renal crônica. Boa parte não sabe disso, porque o rim consegue compensar a perda de função por muito tempo. Em geral, os sintomas aparecem só quando uma parte grande dos néfrons já foi perdida.

Por isso, o diagnóstico precoce depende de exames simples, e não de esperar sinais. Os principais são:

  • Creatinina no sangue, usada para calcular a taxa de filtração glomerular (TFG);
  • Exame de urina, que pode mostrar proteína (albuminúria) ou sangue;
  • Medida da pressão arterial, já que hipertensão é causa e consequência da doença renal.

Quem tem diabetes, pressão alta, obesidade, histórico familiar de doença renal ou mais de 60 anos faz parte do grupo que mais se beneficia do rastreamento periódico.

Água do jeito certo

Beber água ajuda os rins, mas a quantidade ideal varia de pessoa para pessoa. Uma referência prática é observar a cor da urina: amarelo claro costuma indicar boa hidratação. Distribuir a ingestão ao longo do dia funciona melhor do que tomar muita água de uma vez.

Para quem já teve pedra nos rins, a evidência é mais forte. Um estudo clássico publicado no Journal of Urology (Borghi, 1996) acompanhou pacientes por 5 anos e mostrou que quem aumentou a ingestão de líquidos, chegando a produzir mais de 2 litros de urina por dia, teve bem menos recorrência de cálculos do que o grupo sem essa orientação.

Atenção: pessoas com insuficiência cardíaca ou doença renal avançada podem ter restrição de líquidos. Nesses casos, a meta de água deve ser definida pelo médico.

Quando o rim parece estômago

Um ponto que confunde muita gente: enjoo, vômito, perda de apetite e gosto metálico na boca podem estar ligados ao rim. Quando a função renal cai muito, substâncias que deveriam ser eliminadas se acumulam no sangue (quadro chamado de uremia) e afetam o sistema digestivo.

Outros sinais que podem aparecer em fases mais avançadas incluem:

  • Inchaço nas pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos;
  • Cansaço persistente e falta de ar;
  • Urina com espuma persistente ou mudança no volume urinado;
  • Coceira no corpo e cãibras.

Esses sintomas não são exclusivos do rim e têm muitas outras causas possíveis. O recado é: se eles persistem, especialmente em quem tem fatores de risco, vale incluir a avaliação renal na investigação.

Bebidas que cansam o filtro

Uma análise de grandes coortes publicada no Clinical Journal of the American Society of Nephrology (Ferraro, 2013) associou o consumo frequente de refrigerantes adoçados com açúcar e bebidas tipo ponche a um risco maior de pedra nos rins. Já café, chá e alguns outros líquidos apareceram associados a risco menor.

Vale lembrar que se trata de associação, não de prova de causa. Ainda assim, faz sentido priorizar água e reduzir bebidas açucaradas, que também pesam no controle de peso, glicemia e pressão, três fatores que afetam diretamente a saúde dos rins. O excesso de álcool e de bebidas muito ricas em sódio também merece moderação.

Suplementos que pedem cuidado

Em quem tem tendência a cálculo renal, alguns suplementos exigem atenção:

  • Vitamina C em doses altas: parte dela é convertida em oxalato, e estudos observacionais associam o uso prolongado em altas doses a mais pedras de oxalato de cálcio, principalmente em homens;
  • Suplemento de cálcio: o cálcio da alimentação, em geral, não aumenta o risco e pode até proteger. A preocupação é maior com cápsulas tomadas sem orientação;
  • Excesso de proteína em pó: dietas muito ricas em proteína animal podem aumentar a carga sobre os rins e favorecer cálculos em pessoas predispostas.

Cortar o cálcio da dieta por conta própria não é recomendado. A estratégia certa depende do tipo de pedra, que só a avaliação médica identifica.

Os rins adoecem em silêncio, então a proteção começa antes dos sintomas: exames de rotina para quem tem fator de risco, água distribuída ao longo do dia, menos bebidas açucaradas, atenção a sintomas digestivos persistentes e suplementos só com orientação médica.